BH IN PRESS

Entrevista com Fabrizio Poltronieri

Tecnólogo Criativo e Professor Associado fala sobre o impacto da Inteligência Artificial Criativa no mercado e na sociedade.

Por Diego Ferreira · Entrevistas ·

A combinação entre inteligência artificial e arte está redefinindo não apenas os processos criativos, mas também a forma como o mercado e a sociedade se relacionam com a produção cultural. A IA amplia possibilidades, permitindo que artistas explorem novas linguagens estéticas, criem obras inéditas e democratizem o acesso à criatividade. Ao mesmo tempo, desafia paradigmas sobre autoria, originalidade e valor, levantando debates éticos que influenciam diretamente setores como moda, design, comunicação e entretenimento. Esse encontro entre tecnologia e sensibilidade humana mostra que inovação não é apenas eficiência, mas também expressão, impacto social e transformação cultural. Para saber mais sobre esse tema realizei uma entrevista com o Fabrizio Poltronieri. Confira o bate-papo repleto de insights. Fabrizio, você tem uma trajetória que une arte, tecnologia e pesquisa acadêmica. Como enxerga essa interseção transformando a forma como criamos e interpretamos a arte hoje? Eu acredito que tudo esteja interligado, eu não vejo diferença entre as diversas áreas em que atuo. Tecnologia e inovação são o que une os meus interesses transdisciplinares. Minha primeira formação foi em matemática, e depois fiz outra graduação em design gráfico. Foi quando comecei a unir as duas áreas através da tecnologia, programando. Quando fiz meu Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura percebi que a arte era o campo mais fértil para exploração de minhas ideias. É interessante observar que na Grécia antiga o termo 'techne' era um conceito filosófico que se referia ao fazer, ao conhecimento prático, incluindo vários campos do saber, incluindo matemática, geometria, filosofia, astronomia, música e arte. Ou seja, o conhecimento na Grécia antiga era visto de maneira unificada. Foi somente com o advento da modernidade que as áreas do saber e fazer se dividiram da forma como as conhecemos hoje. Seu trabalho com Inteligência Artificial envolve redes neurais e aprendizado de máquina aplicados à criação artística. Até que ponto você acredita que a máquina pode ser coautora de uma obra? Eu pesquiso e trabalho com Inteligência Artificial há 25 anos, também atuando como consultor. Ou seja, muito antes do advento desta onda que vivemos atualmente de redes neurais, aprendizado profundo e inteligência artificial generativa. Hoje em dia muitos pensam que Inteligência Artificial é sinônimo de redes neurais e modelos de linguagem, mas o termo foi cunhado em 1955 em um workshop em Dartmouth, Estados Unidos. Na verdade, foi um rebranding de uma área que era conhecida como 'cibernética'. Eu cunhei o termo 'futuro simbiótico' no livro 'The Language of Creative AI'. Este conceito diz respeito a minha crença de que no futuro sistemas de Inteligência Artificial não irão substituir humanos, mas sim irão trabalhar, jogar e criar em conjunto conosco. Quais têm sido os experimentos mais desafiadores e inspiradores ao trabalhar com criatividade computacional? Aproveite e fale também sobre o seu trabalho no Espaçonave Tupi. Definitivamente o aspecto mais desafiador e inspirador tem sido projetar e criar sistemas que atuem com humanos em tempo real, de forma transparente. Há seis anos eu criei junto com o músico e professor Craig Vear, na Universidade de Nottingham no Reino Unido, um modelo de Inteligência Artificial chamado 'Solaris'. A Espaçonave Tupi é um estúdio criativo multidisciplinar, um laboratório vivo de ideação que reúne artistas, cientistas, educadores e produtores. Nosso propósito é explorar novas formas de engajar com a tecnologia, criando experiências que despertam curiosidade, aproximam as pessoas da ciência e da pesquisa, e ampliam a consciência sobre temas urgentes como sustentabilidade e educação inclusiva. Muito se fala sobre o 'acaso' e a imprevisibilidade como parte essencial do processo criativo. Como a filosofia por trás da criação influencia suas pesquisas e produções artísticas com IA? Eu não sou filósofo de formação, mas posso dizer que eu tenho uma boa bagagem filosófica adquirida por meio de leituras, participações em conferências e debates. Como artista, minhas obras vão além da fenomenologia do que é aparente. Minha tese de doutorado foi sobre o papel do acaso na arte computacional, trazendo uma discussão profunda sobre o acaso como uma força criadora que está por trás do universo. Eu acredito, como artista e cientista, que o acaso está na base de tudo, sendo responsável pela diversidade e exuberância do universo. Pensando no futuro, como você imagina o papel da criatividade computacional não só nas artes, mas também na educação e em áreas estratégicas da sociedade? A criatividade é talvez o nosso maior ativo. Hoje em dia é trivial, se você tiver acesso aos recursos computacionais, treinar um sistema que mimetize a linguagem humana, passando inclusive no teste de Turing. Mas ainda estamos longe de modelar a criatividade. É por isso que eu acredito neste futuro simbiótico que eu mencionei. É necessário lembrar sempre que na relação humano / computadores, a inteligência é uma propriedade nossa! Aproveite para deixar um recado final para o público da Revista BH in Press que gosta de acompanhar o mercado da economia criativa em Belo Horizonte. Eu quero agradecer muito o espaço, e finalizar dizendo que a economia criativa representa um grande potencial não apenas econômico, mas também imaterial, e que o Brasil é e continuará sendo um dos grandes celeiros de criatividade global.